As Profecias Aterrorizantes de George Orwell
O passado foi apagado. O apagador foi esquecido. A mentira tornou-se verdade.
O nome George Orwell é hoje sinônimo de liberdade de expressão, de oposição ao totalitarismo e de alguns dos mais lancinantes alertas da história literária. Mas sua fama e seu sucesso fizeram com que o mito frequentemente eclipsasse quem ele realmente era e no que realmente acreditava. Por isso, este ensaio percorre tanto sua ficção quanto seus ensaios muito menos conhecidos para examinar com precisão por que George Orwell estava tão inquieto com o futuro da civilização, o que pode ser feito para prevenir a catástrofe e de que modo podemos ser ludibriados a abrir mão de nossas liberdades mais fundamentais.
Comecemos examinando aquilo pelo qual Orwell é talvez mais conhecido: sua crítica a como os governos e outras organizações poderosas podem controlar as próprias ideias a que temos acesso.
Um. Informação e Controle
Uma das experiências mais formativas de George Orwell foi trabalhar para a BBC da Índia durante a Segunda Guerra Mundial, produzindo propaganda aliada de definição bastante elástica. Em si, Orwell não tinha necessariamente objeção a isso: evidentemente queria que Hitler perdesse a guerra. Mas essa experiência lhe conferiu uma percepção inquietante da facilidade com que governos e outras grandes organizações podem controlar a que informações as pessoas têm acesso, ao controlar aqueles que as disseminam. Orwell descobriu-se sob a supervisão e a correção constantes do burocrático India Office, e mais tarde deixou implícito que não sentia poder falar com qualquer honestidade em suas transmissões. Acima de tudo, sentia que as transmissões promoviam uma política pró-imperial que colidia com suas próprias simpatias pela independência indiana. Essa experiência informaria mais tarde seu retrato do trabalho embotante e sufocante de Winston no Ministério da Verdade, em 1984.
Menciono esse capítulo na vida de Orwell porque ele toca em um dos temas centrais de seus ensaios: a preocupação com o livre acesso à informação e com o grau em que nossa compreensão do mundo é manipulada por aqueles que detêm o poder. Ao refletir sobre seu tempo na Guerra Civil Espanhola, Orwell teme que nenhum relato verdadeiro do conflito jamais venha à luz. Ele prevê que o general Franco e os falangistas promoverão apenas sua versão dos acontecimentos, e que com a crescente capacidade tecnológica de falsificar registros, as evidências do passado não apenas podem ser destruídas, mas efetivamente alteradas para refletir a narrativa que mais beneficia os detentores do poder. Ou, como ele formulou em 1984: quem controla o presente controla o passado.
Para citar diretamente um de seus ensaios: esse tipo de coisa me apavora porque frequentemente me dá a sensação de que o próprio conceito de verdade objetiva está desaparecendo do mundo. Afinal, as chances são de que essas mentiras, ou ao menos mentiras semelhantes, passem para a história. Esse é o orwellianismo clássico: um governo ditatorial falsificando a história para servir a seus próprios fins. Mas essa não é a única ameaça à livre expressão que Orwell vislumbrou.
Em muitos de seus ensaios, ele identifica os monopólios corporativos sobre a publicação como a ameaça mais imediata à proliferação da informação na Grã-Bretanha de seu tempo. Embora isso não constitua um controle totalitário das ideias, ainda assim impõe limites extremos, não sobre o que pode ser expresso, mas sobre o que pode ser ouvido por um amplo círculo de pessoas. Orwell observa que, para ser ouvido, é preciso ter uma plataforma, e construir uma por conta própria é extraordinariamente difícil. Para ser publicado, era necessário encontrar uma editora mainstream disposta a empenhar seus recursos em favor de um determinado texto, e isso implicava a sujeição às convicções que as grandes editoras gostariam de ver expressos. Para Orwell, que era ele mesmo um socialista democrático, essas ideias eram muito mais difíceis de publicar: por que alguém rico o suficiente para possuir um jornal ou uma editora desejaria defender o socialismo democrático?
Na prática, Orwell diz que grande parte da censura não é imposta de cima, mas de dentro, porque as pessoas tentam não arruinar suas chances de prosperar como escritores ou de prejudicar suas perspectivas econômicas. Muitos não consideram esse tipo de coisa uma ameaça à livre expressão hoje, mas está muito em consonância com o pensamento liberal clássico, como o de John Stuart Mill em sua obra Sobre a Liberdade, onde ele argumenta explicitamente não apenas pela ausência de censura estatal, mas também pelo encorajamento ativo de uma variedade de ideias dentro de uma sociedade. É por isso que Mill condena a punição no tribunal da opinião pública tanto quanto as leis que proíbem a expressão.
Orwell estende a mesma crítica à monopolização da mídia. Embora ele não considere isso equivalente à censura totalitária, ainda assim é algo que o preocupa profundamente.
Orwell também nos identifica, a nós, as pessoas comuns, como uma potencial ameaça à livre expressão. Isso porque também somos uma força poderosa, passível de ser instrumentalizada. Em algumas de suas cartas, ele observa que governos totalitários não podem ascender ao poder sem alguma base de apoio popular: uma proporção significativa da população precisa comprar a ideia de que a livre expressão é indesejável ou perigosa demais, ou ao menos não se opor a ela com demasiada veemência. O que é ainda mais perturbador: ele acredita que as pessoas frequentemente apoiam movimentos totalitários a partir de um desejo genuíno de remediar injustiças, sem perceber que estão lacrando sua própria sentença. Esse poder das multidões é representado em 1984 no Dois Minutos de Ódio, onde as emoções dos cidadãos pisoteados são sempre firmemente direcionadas para os inimigos do governo, jamais para o próprio governo. Vemo-lo também em A Revolução dos Bichos, onde o porco Napoleão instrumentaliza o legítimo descontentamento dos animais da fazenda para tomar o poder em benefício de seus próprios fins nefastos.
Vale notar que Orwell estava tão preocupado com a apatia das pessoas quanto com sua potencial antipatia. Vários de seus ensaios tocam na falta generalizada de apetite pelo pensamento crítico ou pela escrita crítica. Ele fala de como a maioria dos escritores simplesmente não consegue sobreviver redigindo análises cuidadosamente elaboradas dos acontecimentos correntes ou obras literárias bem pensadas. Precisam passar grande parte do tempo fazendo trabalho de encomenda, seja repetindo insincerely opiniões ortodoxas em troca de pagamento, seja produzindo irrelevâncias de nenhum valor. De qualquer forma, isso significa que há muito menos informação de qualidade disponível em comparação com todo esse trabalho economicamente mais viável, mas fundamentalmente vazio. Isso tem o efeito em cascata de saturar o reservatório informacional de palavras ocas, com pouco potencial para estimular o pensamento crítico em um leitor ou em uma audiência.
Vemos isso refletido em 1984, onde o governo produz não apenas propaganda, mas também um entretenimento vazio e incessante para encher as cabeças das pessoas com ideias inofensivas e acríticas, ou simplesmente para impedi-las de pensar.
Em última análise, Orwell acredita que todas essas forças atuam em conjunto para sufocar a livre expressão e o pensamento crítico. Por um lado, os barões da imprensa, os magnatas do cinema e os burocratas asseguram que apenas algumas ideias circulem para um público mais amplo. Por outro, o espírito do totalitarismo pode insinuar-se sorrateiramente, sustentado tanto por pessoas que genuinamente acreditam que ele lhes proporcionará uma vida melhor, quanto pela classe intelectual, que Orwell considera particularmente suscetível a ser convencida de que a liberdade e a livre expressão simplesmente não são boas ideias.
Essas restrições podem ser tão menores quanto tabus sociais ou tão graves quanto declarações legais, e Orwell se opõe a ambas em termos bastante severos. Em seu ensaio A Prevenção da Literatura, ele afirma que mesmo um único tabu pode ter um efeito paralisante e abrangente sobre a mente, porque há sempre o perigo de que qualquer pensamento possa conduzir ao pensamento proibido.
Tudo isso ajuda a enriquecer a concepção popular de Orwell e de suas visões. Embora ele definitivamente se opusesse aos Estados totalitários, estes não eram o foco exclusivo de seus ensaios. Ele era severamente crítico dessas outras maneiras não estatais de restringir a expressão. Não é preciso concordar com ele, mas esse reconhecimento pode nos conferir uma apreciação mais profunda do que Orwell estava preocupado: não apenas com a repressão estatal, mas com a monopolização das ideias de modo mais geral.
Mas isso está longe de ser a única preocupação que Orwell tinha com a forma como compreendemos e processamos o mundo. Ele também examina o que fazemos com a informação quando ela está em nossas mãos, e é preciso admitir: ele não gosta do que vê.
Dois. Grupos e Grupismo
Você já discutiu com alguém que simplesmente não aceita que há falhas em sua posição? Cada vez que você levanta um fato perfeitamente confiável que contradiz sua visão de mundo, a pessoa se enrola em explicações mirabolantes de por que não precisa ouvi-lo. O fato é inconveniente demais para ser reconhecido, então é preciso encontrar uma maneira de descartá-lo. Às vezes isso assume a forma de simples negação; mas a pessoa pode também atacar quem o disse como sendo malévola, ou tratar o próprio fato como demasiado absurdo para ser contemplado. Significativamente, também pode descartá-lo rotulando-o de algo que o inimigo diz: qualquer coisa que o inimigo diga é impensável não porque seja necessariamente falsa, mas porque sua verdade beneficiaria o outro lado.
Esse é um exemplo bastante extremo, mas Orwell acredita que a maioria de nós é propensa a comportar-se assim em maior ou menor grau. Ele examina essa tendência em detalhe em seus ensaios sobre o nacionalismo, empregando esse termo em razão de seu contexto histórico, mas deixando claro que ele abrange muito mais do que um simples viés em favor da própria nação. Ele o identifica entre comunistas e capitalistas, entre intelectuais de torre de marfim e a classe trabalhadora, e entre todos os partidos políticos principais. Hoje provavelmente o chamaríamos de viés de grupo, e Orwell tem uma definição bastante precisa: o hábito de identificar-se com uma única nação ou outra unidade e não reconhecer nenhum dever que não seja o de promover seus interesses.
Isso é mais evidente, claro, quando alguém o explicita abertamente, quando é membro declarado de alguma organização com a qual se identifica publicamente e cujos destinos estão ligados aos seus. Como Upton Sinclair apontou certa vez, é incrivelmente difícil convencer alguém de qualquer coisa se o salário dessa pessoa depende de ela não ser convencida.
Mas Orwell argumenta que todos somos propensos a formas mais sutis desse viés de grupo fundamental. Ele observa que se nos identificamos com um grupo, seja implícita ou explicitamente, toda uma série de outras coisas decorre naturalmente disso. Em um nível, os inimigos do grupo tornam-se nossos inimigos, e os amigos do grupo tornam-se nossos amigos. Isso significa que, em todos os casos, o grupo é inicialmente presumido como estando certo, e quem quer que esteja em conflito com ele é presumido como estando errado. Em forma mais severa, esse sentimento moral pode resistir a qualquer evidência contrária; mas em formas mais sutis pode simplesmente ser que o padrão de evidência para que o meu grupo esteja errado seja colocado muito mais alto do que o padrão para que ele esteja certo. Se há um mínimo fragmento de evidência favorável à causa moral do grupo, ele é imediatamente agarrado e tratado como extremamente confiável. Mas qualquer evidência que pinte o grupo de maneira desfavorável é submetida a um escrutínio severo. Emerge um duplo padrão epistêmico no qual o pensamento crítico é praticamente abandonado quando se examina o próprio grupo, mas um Sócrates moderno subitamente aflora quando se critica grupos adversários.
Esse preconceito inicial se expande em cascata para toda uma série de outros erros cognitivos. Orwell até prefigura a ideia do viés de confirmação quando explica como esses adeptos do grupismo chegam a uma resposta com base nos interesses do grupo e então deliberadamente buscam informações que confirmem essa resposta. Isso pode não ser nem mesmo consciente, e podem acreditar que estão simplesmente fazendo a coisa certa. Afinal, se você já aceitou que a informação contrária à sua visão é não confiável, comprometida e destrutiva, então buscar fontes confiáveis e buscar fontes que concordem comigo tornam-se basicamente sinônimos. Isso significa que muitos dos grupistas serão verdadeiros crentes: não apenas acreditarão que determinada informação deve ser promovida porque é benéfica para eles ou para seu grupo, mas afirmarão que isso é a pura verdade, e acreditarão nisso de coração.
Em uma citação absolutamente impecável, Orwell comenta como os pensadores são respeitados pelos grupistas mesmo quando se mostram repetidamente equivocados: comentaristas políticos ou militares, como astrólogos, podem sobreviver a quase qualquer erro porque seus seguidores mais devotos não os procuram para uma avaliação dos fatos, mas para a estimulação de lealdades nacionalistas. Lembremos que Orwell usa “nacionalistas” nesse sentido mais amplo que temos chamado de grupistas.
Orwell também é claro que, não importa o quão aparentemente perspicaz ou inteligente sejamos, todos somos propensos a esse tipo de pensamento grupista. Ele visa especialmente os membros da intelectualidade: mesmo aqueles que normalmente exibem níveis deslumbrantes de pensamento crítico, mas que deixam essa habilidade em casa ao avaliar o próprio grupo ou as próprias lealdades. Em certos aspectos, são ainda mais capazes de fazer isso, pois conseguem construir um caso convincente para seu lado com muito mais facilidade e depois imunizar esse caso da crítica ao acionar seletivamente suas capacidades analíticas.
É interessante notar que Orwell observa que às vezes é muito mais fácil ceder a esse grupismo irrestrito quando se está distante do grupo em questão. Ele aponta intelectuais britânicos que enalteciam as glórias do stalinismo: só conseguiam descartar as evidências do totalitarismo ou minimizar sua importância porque não estavam pessoalmente enredados nele. Esse distanciamento da realidade física de suas crenças às vezes permite ao grupista viver quase inteiramente em um mundo onírico, onde as utopias estão sempre logo ali adiante, ou escondidas no passado, ou em alguma versão alternativa da história em que de alguma forma acertamos.
Isso é obviamente bastante desastroso no nível individual: coloca o grupista fora de contato com a realidade e o torna muito mais propenso a acreditar em falsidades flagrantes. Mas também envenena as possibilidades de diálogo. Quando um número significativo de grupistas se interessa por uma questão, essa questão torna-se quase impossível de ser examinada ou resolvida. A maioria das pessoas que reúne e compila evidências para qualquer posição particular já terá tomado partido no início de sua investigação. Isso nos deixa afogados em um mar de argumentos selecionados a dedo e desinformação quase declarada. O que poderia ter sido uma busca pela verdade torna-se uma luta pelo poder, sem que nenhum dos lados necessariamente perceba que essa mudança ocorreu.
Orwell, porém, não é um idealista. Ele não acredita que possamos erradicar completamente esse tipo de viés de nossas mentes. Ao contrário, acredita que estar consciente de nossas tendências grupistas nos permite trabalhar contra elas. Ele sugere que instalemos conscientemente grades de proteção epistêmicas: quando nos deparamos com alguma informação favorável ao nosso grupo, devemos submetê-la a mais escrutínio do que inicialmente julgamos apropriado. É como um arqueiro que mira acima do alvo, sabendo que a força da gravidade puxará a flecha para baixo, em direção ao centro. Orwell até admite que algum sentimento grupista pode ser necessário para um engajamento político emocionalmente comprometido, mas para garantir que nosso grupismo não nos desconecte da realidade, precisamos estar determinados a ao mesmo tempo reconhecê-lo e combatê-lo. Ele também acredita que a maioria de nós será totalmente incapaz ou relutante de fazer isso, ou não perceberá que a lição se aplica a nós mesmos.
Três. As Narrativas e Seu Impacto
É tentador dividir a obra de Orwell claramente em duas partes: seus romances ou sua poesia de um lado, e seus ensaios de outro; sua ficção e sua argumentação mais direta. Mas ele pessoalmente provavelmente não endossaria uma separação tão nítida. Na verdade, ele frequentemente se esforça para enfatizar a importância crucial que a ficção e a narrativa têm para a maneira como nos relacionamos com o mundo, incluindo como formamos nossos valores fundamentais. Para Orwell, embora o controle da informação possa ditar a que fatos temos acesso, o controle das histórias pode ditar como compreendemos esses fatos.
Ele faz esse ponto com extraordinária habilidade em um de seus ensaios mais obscuros, sobre as revistas ambientadas em escolas públicas britânicas, que, para os não familiarizados com o sistema britânico, são na verdade as mais elitistas escolas privadas. No início e em meados do século XX, havia muitas revistas com intermináveis histórias ambientadas nessas escolas aristocráticas, mas voltadas a pessoas que não podiam se dar ao luxo de frequentá-las.
Orwell observa que nessas revistas um conjunto particular de valores era implicitamente assumido: havia uma ênfase no espírito de grupo, um profundo respeito pela autoridade e pela honra suprema da escola, e um retrato bastante cor-de-rosa do que os extratos superiores da sociedade britânica seriam em sua essência. Acima de tudo, ele observa que as revistas tinham tantos personagens que qualquer pessoa podia se identificar com alguém que frequentava a escola, encorajando implicitamente as pessoas a identificar-se com esse estrato superior. Ele acredita que histórias como essas formam o mosaico de valores e ideias que simplesmente herdamos do contexto cultural, mas destilados em uma narrativa bastante repetitiva. É um mundo de travessuras, mas não de violência; de rebeldia, mas sem mudança real; e de uma suave admiração pelos mais ricos e poderosos do país.
Não é de admirar que Orwell, como socialista democrático, achasse isso levemente perturbador. Ele resume a situação tanto nessas revistas quanto em outras similares, voltadas a diferentes estratos da sociedade britânica, com as seguintes palavras: não há em parte alguma a sugestão de que possa haver algo errado com o sistema como sistema. Existem apenas infortúnios individuais, que em geral se devem à maldade de alguém e que em todo caso podem ser remediados no último capítulo.
Independentemente de se partilhar ou não as inclinações políticas de Orwell, a observação geral é extremamente valiosa. Essas narrativas ficcionais são tão poderosas porque não apenas moldam nossos valores, mas até mesmo o que consideramos plausível. Para Orwell, se fomos imersos em narrativas que nos dizem que aqueles no poder são em geral bem-intencionados, e que embora seja muito bem questioná-los, é melhor cair na linha quando a situação aperta, isso nos tornará menos propensos a considerar que futuras figuras de autoridade possam ter más intenções ou ser fundamentalmente falhas.
Talvez não seja por acaso que tantas de suas histórias combatem exatamente essa narrativa. Em A Revolução dos Bichos, as figuras de autoridade são consistentemente retratadas como falaciosas, maquinadoras e propensas a agarrar mais poder sempre que a oportunidade surge, o que está muito em consonância com o ceticismo geral de Orwell em relação a quem detém o maior poder.
Mas Orwell não está apenas interessado em narrativas externas, como as encontradas em histórias. Ele quer que prestemos atenção cuidadosa às nossas narrativas internas também. Orwell não formula esse ponto sistematicamente como um filósofo analítico o faria, mas ele está implícito em tantas de suas observações. Por exemplo, quando lutava na Guerra Civil Espanhola, ele notou que não conseguia dar um tiro em um falangista que corria pelo campo de batalha de calças abaixadas por qualquer razão que fosse. Esse detalhe perturbou a narrativa interior que lhe permitia justificar tirar uma vida humana. Ele precisava que o homem fosse um soldado inimigo e apenas um soldado inimigo; mas quando suas complexidades mais humanas se revelaram, tornou-se muito mais difícil atirar nele.
A mesma situação ocorre em sentido inverso quando ele testemunha uma execução na Birmânia, hoje Mianmar. Antes do enforcamento, há uma tensão profunda no ar, e Orwell se sente supremamente desconfortável. Ele nota todas as pequenas idiossincrasias do condenado, especialmente como este desviou para evitar uma poça d’água, apesar de saber que estaria morto nos próximos trinta minutos. Mas depois que o ato é consumado, a narrativa rapidamente se transforma: alguém menciona que a execução correu bem, muito melhor do que as mal-executadas do passado, e imediatamente o enquadramento da situação muda. A comparação não é mais entre o homem que estava vivo e ele agora morto, mas entre o evento decorrendo com tranquilidade e o evento decorrendo precariamente. Como resultado, as coisas subitamente parecem muito melhores, e com essa alteração na história contada internamente, as reações de todos os presentes fazem uma virada de cento e oitenta graus.
Creio que esse discernimento é uma das razões pelas quais os livros de Orwell são tantas vezes uma mescla habilidosa de pensamento político e estrutura narrativa: os dois tornam-se quase inseparáveis. Seria impossível escrever uma versão de 1984 em que a mensagem política do livro e a história não estivessem intimamente entrelaçadas. E ao nos expor a essa narrativa externa, Orwell nos encoraja a remodelar a nossa interna. Ele planejou explicitamente sua obra para isso, afirmando: cada linha de trabalho sério que produzi desde 1936 foi escrita direta ou indiretamente contra o totalitarismo e em favor do socialismo democrático tal como o compreendo.
Para Orwell, as batalhas políticas são em parte vencidas nas mentes de um povo, e é nesse campo que ele finca sua bandeira. O ponto aqui não é que precisemos concordar com as posições políticas específicas de Orwell, apenas que essa ligação entre narrativa, comportamento e crença merece ser levada em conta quando também nos aproximamos do mundo. Quais são as histórias que nos contamos a nós mesmos? E onde elas nos cegam para críticas potencialmente severas de nossa visão de mundo? Onde elas nos permitem cometer ou tolerar comportamentos que de outro modo acharíamos abomináveis?
Não se trata de abandonar a narrativa, o que talvez nem seja possível, mas, como tudo o mais, talvez não queiramos simplesmente deixar essas narrativas seguirem sem questionamento.
Orwell também sabe, porém, que a narrativa correta é frequentemente obscura, tanto factual quanto moralmente. Em seus relatos da Guerra Civil Espanhola, ele observa a noção romanticamente tingida que muitas pessoas têm de uma guerra de libertação, ou de uma guerra para defender o que é certo. Muitos dos que se alistaram não tinham ideia da realidade do conflito, e essa narrativa aplicava uma camada de verniz reluzente sobre uma decisão insuportável: lutar ou fugir. Orwell se pergunta se isso é correto, apesar de o fazer em prol de uma causa que ele acredita ser indubitavelmente justa. Por um lado, ele genuinamente acredita no objetivo republicano; por outro, começa lentamente a enxergar seus esforços reais como sem esperança. Ele reflete sobre o que verdadeiramente é a coisa certa a fazer. A narrativa adequada é a de um pequeno grupo de pessoas que corajosamente defende um conjunto de princípios eternos contra todas as probabilidades? Ou deve essa narrativa eventualmente ser abandonada para que os republicanos derrotados tenham uma chance maior de sobreviver para ver outro dia?
Orwell frequentemente combina essa observação sobre a narrativa com as das seções anteriores para explicar por que as pessoas podem ter posições aparentemente contraditórias, cambiantes ou absurdas. Quando analisamos as crenças das pessoas, frequentemente pensamos que estão tentando torná-las coerentes entre si e com as evidências disponíveis, ou seja, com a ideia geral da verdade. Mas se Orwell estiver certo, são igualmente propensas a visar a coerência com os grupos com os quais se identificam e com suas narrativas internas preexistentes. E como Mark Twain disse: por que deixar a verdade atrapalhar uma boa história?
Quatro. Linguagem e Pensamento
No início do século XX em filosofia, algumas das pessoas mais inteligentes do mundo ficaram muito agitadas com a linguagem e a precisão. Vários pensadores desencantaram-se com a maneira pela qual a linguagem estava sendo usada para, em termos diretos, fazer o absurdo parecer plausível. Muitos deles embarcaram em jornadas intelectuais para separar o trigo da investigação racional e lógica do joio do palavrório desprovido de sentido. É consenso que nenhum deles encontrou um sistema infalível para isso, mas sua intuição faz eco a uma sensação que muitas pessoas têm ao ler certos textos ou certos escritores: que o uso da linguagem encobre uma proposição inconsistente ou de algum modo duvidosa.
O próprio Orwell estava profundamente preocupado com isso, e isso forma o tema de um de seus ensaios mais famosos, Política e a Língua Inglesa. Ele começa discutindo a linguagem desnecessariamente obscura, que dá a impressão de soar muito mais autoritária do que é ou do que tem qualquer direito de ser.
Por exemplo, imagine que se esteja tentando expressar desagrado por um programa de televisão. Por si só, isso não soa muito impressionante: é bastante normal que os gostos televisivos variem de pessoa para pessoa. Mas se, em vez disso, se dissesse algo como a história confunde o espírito absoluto da arte com o espírito medíocre do entretenimento, iludindo os filisteus a gostar dela, isso soaria muito mais autoritário, apesar de não significar basicamente nada. O que diabos se quer dizer com espírito absoluto da arte? É uma salada de palavras fanciosamente construída, todo tempero e nenhum alimento. Também implica que quem discorda dessa avaliação é um filisteu e, portanto, não merece ser ouvido. Uma série de truques linguísticos foi empregada para fazer uma simples reação emocional parecer refletir alguma verdade mais profunda. Não se está sugerindo que ninguém pode debater sobre arte, mas essa afirmação por si só é praticamente desprovida de conteúdo. Talvez seu maior blefe seja deslocar o enquadramento da discussão de mim e das minhas próprias percepções para o programa em si, sugerindo que minha reação é mais objetiva do que provavelmente é, e assim mais uma vez inflando a autoridade percebida em jogo.
Orwell acredita que esse tipo de truque é praticado o tempo todo, nem sempre por razões maliciosas: às vezes é simplesmente para se encaixar em um estilo acadêmico mais geral. Mas Orwell também argumenta que isso causa dano real ao nosso cenário político e linguístico. Significa que o discurso gradualmente se torna cada vez menos compreensível. Em seu pior estado, o uso excessivo de linguagem complexa encoraja as pessoas a simplesmente se desligar das discussões, mesmo quando o resultado dessas discussões é realmente importante. Orwell, de modo característico, concentra-se na política aqui, afirmando que o zumbido monótono de uma linguagem política excessivamente elaborada faz com que tanto o orador quanto o público possam de algum modo se desligar, o que gentilmente encoraja o desinteresse e a conformidade.
Esse tipo de manipulação é ainda mais claro quando alguém usa linguagem emocionalmente carregada para enquadrar uma discussão de uma determinada maneira, sem precisar argumentar diretamente em favor desse enquadramento. Se se estivesse argumentando por algo completamente abominável, como o abate em massa de filhotes, provavelmente não se diria isso abertamente. Em vez disso, se empregaria uma série de eufemismos e metáforas para tornar a ideia menos malévola. Em vez de filhotes, provavelmente se diria predadores caninos ou até mesmo futuros mordedores. Sendo ainda mais ousado, não se falaria diretamente em prejudicar filhotes, mas em instituir quaisquer medidas necessárias para proteger as inocentes crianças do país desses ferozes animais mordedores. O conteúdo real das políticas pode não ter mudado, mas certamente soa diferente agora: não é agressivo, mas defensivo; não se trata de filhotes doces e inocentes, mas de aterrorizantes predadores caninos. A perspectiva de matar todos esses filhotes torna-se ligeiramente mais palatável, especialmente se esse se tornar o vocabulário utilizado ao discutir ou pensar sobre o assunto.
Orwell toca nesse mesmo ponto quando afirma que a linguagem às vezes é usada para defender o indefensável. Isso frequentemente significa encobrir a violência envolvida em uma ação: assim, os engajamentos militares são descritos como pacificação. Afinal, quem poderia ser contra a pacificação? Literalmente significa fazer a paz. Basta pensar em todos os países que têm “democrática” no nome mas que estão longe de ser democráticos.
E defender o indefensável é um pouco mais fácil se se combinam todas essas técnicas, fundindo eufemismos e obscurantismo em uma combinação refinada. Orwell usa o exemplo de um professor de inglês defendendo o encarceramento stalinista de dissidentes políticos. Ele poderia dizer algo como: embora concordando livremente que o regime soviético exibe certas características que o humanitário pode ser inclinado a deplorar, devemos, creio eu, concordar que um certo cerceamento do direito à oposição política é um concomitante inevitável dos períodos de transição. Aqui vemos os detalhes das atrocidades obscurecidos pela expressão certas características que o humanitário pode ser inclinado a deplorar, acompanhados de uma minimização e de uma justificação da brutalidade como inevitabilidade. A afirmação não apenas é virtualmente impenetrável, como também mente por omissão, tudo isso escondido atrás de uma cortina de fumaça de linguagem elevada e estrutura frasal labiríntica.
Isso tudo se espelha, compreensivelmente, na ficção de Orwell. Muito foi dito sobre o Novafala em 1984, onde uma nova língua é lentamente criada pelo Partido dominante, com o objetivo de erradicar completamente o pensamento dissidente ao eliminar a linguagem dissidente. A ideia é que, mesmo que alguém tenha a vaga sensação de que algo está errado, não será capaz de comunicar esse pensamento a outra pessoa, nem de o conceptualizar de forma organizada. A oposição torna-se muito mais difícil quando não se consegue articular o que se está opondo.
Assim, Orwell teme que todos esses truques linguísticos possam permitir que os totalitários ascendam ao poder ou o consolidem, uma vez que agora são capazes de minimizar aspectos negativos ou criar tamanha confusão que ninguém consegue perceber o que está acontecendo. Mais uma vez, Orwell não está postulando uma conspiração organizada: apenas acredita que as condições são inquietantemente favoráveis para potenciais totalitários.
Isso se liga claramente às preocupações de Orwell das seções anteriores. Os temores sobre restrições à expressão, o viés de grupo que controla narrativas e a alteração da linguagem formam uma teoria multifacetada das maneiras concretas e cotidianas pelas quais a informação pode ser usada para controlar ou influenciar as pessoas sem que estas necessariamente percebam. E talvez a parte mais assustadora seja que não requerem nenhum grupo de conspiradores sombrios nem um Estado totalitário já existente. Cada um desses fatores pode ser encontrado em maior ou menor grau em quase todos os grupos sociais ou sociedades. Alguns deles podem até ser inevitáveis. Mas se os conhecemos, podemos abordar esse fluxo de informações com os olhos abertos, em vez de caminhar cegamente para um pesadelo.
Cinco. Otimismo e Totalitarismo
Se há um tom geral nos ensaios de Orwell, especialmente nos mais tardios, é o de profunda frustração. Às vezes parece-lhe que a maioria das pessoas não está levando a ameaça do totalitarismo nem de longe a sério o suficiente, que há um sentimento subjacente de que isso simplesmente não pode acontecer com elas. Escrevendo antes e durante a Segunda Guerra Mundial, ele dá vazão à sua irritação com aqueles que afirmavam que Hitler não era assim tão ruim e que deveria ser deixado a saquear a Europa sem impedimentos. Após a guerra, ele se desespera diante daqueles na Grã-Bretanha que conseguiam defender o sistema do gulag na URSS. Por onde quer que olhasse, sentia que as pessoas estavam minimizando o quanto o totalitarismo pode se tornar horrível, insistindo que era impossível que chegasse às suas próprias margens. Para Orwell, as pessoas só são capazes de fazer isso porque não viveram pessoalmente em uma situação totalitária, ou simplesmente não observaram uma sem uma lente ideológica distorcida.
Orwell condena essa ignorância não apenas porque justifica horrores que acredita que ninguém deveria ser capaz de tolerar, mas também porque a torna um pouco mais provável de que o totalitarismo chegue à própria nação de quem assim pensa. Ao longo de seus escritos, Orwell enfatiza cada aspecto desagradável de um Estado totalitário, incluindo aspectos que a maioria de nós não teria pensado. Ele retrata crianças delatando os próprios pais, tornando-se órfãs pelo bem do Estado. Mostra os novos líderes de um governo despótico traindo seu próprio povo para enriquecer a si mesmos e garantir seu conforto. Cria mundos onde a própria noção de verdade foi perdida, não porque não existam mais fatos, mas porque esses fatos se tornam impossíveis de estabelecer.
Tudo isso serve para combater o que ele enxerga como as mentiras sedutoras do aspirante a autoritário. Ele quer que todos saibam que, não importa o que lhes digam, o totalitarismo é tão ruim quanto se pode imaginar, e pior ainda. Nesse sentido, Orwell é um pessimista: tem um retrato nítido do que é o inferno e acredita ser uma possibilidade real que um dia lá cheguemos. Esse pessimismo, esse temor, é parte do motivo pelo qual, para muitos, sua obra é como o canário na mina de carvão.
Por outro lado, Orwell às vezes dá sinais reais de otimismo. Ele não é um fatalista; não acredita que a calamidade esteja vindo e que seja inevitável. Na verdade, esse desespero é mais uma coisa que ele quer combater: se passarmos diretamente de ignorar uma ameaça a tratá-la como inderrotável, não há espaço para resistir. Ao longo de suas aventuras, ele encontrou muitos dispostos a dar a vida pelo que acreditavam, e isso lhe deu esperança.
Mas Orwell aponta que o primeiro passo para qualquer resistência é simples: a consciência. É por isso que tantos de seus ensaios tratam especificamente de informação. Ele parecia acreditar que, se o totalitarismo chegasse à Grã-Bretanha de seu tempo, a maioria não o perceberia até que fosse tarde demais. É isso que realmente transparece nos ensaios de Orwell: que embora o despotismo pudesse surgir de um golpe militar ou de uma invasão, poderia também se instalar gradualmente por ignorância ou manipulação.
Tanto em 1984 quanto em A Revolução dos Bichos, os regimes tirânicos conquistam o poder porque fazem falsas promessas às sociedades, promessas que nunca pretenderam cumprir. Enganam, traem, mentem e obscurecem até que as pessoas simplesmente clamam por algum fragmento de certeza que restaure sua sanidade, e o regime está demasiado ansioso por oferecer sua própria narrativa para preencher o vazio. Orwell não necessariamente acreditava que isso fosse resultado de alguma conspiração sombria e organizada: pode emergir tão facilmente pouco a pouco, repetidamente escolhendo o caminho de menor resistência e avançando um centímetro mais na direção da tirania.
Quando o filósofo grego Sócrates foi executado, dizia-se que suas ideias estavam corrompendo a juventude. Quando Galileu foi preso em prisão domiciliar, foi por exprimir uma heresia. Quando Stalin lançou seus críticos nos gulags, foi por atividade contrarrevolucionária. Para Orwell, tudo isso equivale à mesma coisa: o controle do povo por meio do controle da informação.
Se Orwell estiver certo, esta é uma das lições mais valiosas que poderemos jamais aprender. E para quem se opõe ao totalitarismo, em qualquer forma que possa surgir, os ensaios de Orwell bem merecem uma leitura.